Texto originalmente publicado por Carlos Felipe dos Santos em 03/jan/26.
Disponível em https://medium.com/p/f25d84862ff1
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Nos últimos anos, o torniquete deixou de ser visto como um vilão e passou a ocupar papel de destaque em cursos de primeiros socorros, especialmente nos voltados ao controle de hemorragias. Durante muito tempo, seu uso foi controverso: acreditava-se que a aplicação do torniquete aumentaria o risco de amputações ou de danos permanentes ao membro afetado.
Essa visão começou a mudar de forma decisiva no final do século XX e início do século XXI, sobretudo a partir das experiências militares nos conflitos do Iraque e do Afeganistão. Nesses cenários, o uso sistemático de torniquetes modernos, aplicados de forma precoce e correta, demonstrou uma redução significativa das mortes por hemorragias graves em extremidades - uma das principais causas evitáveis de óbito em trauma.
O torniquete consiste, de forma simplificada, em uma tira resistente de tecido, associada a um sistema de aperto (geralmente uma barra de torção, conhecida como windlass), cujo objetivo é interromper completamente a circulação sanguínea em um membro que apresenta uma hemorragia grave e potencialmente fatal.
Ao impedir o fluxo sanguíneo distal à lesão, o torniquete reduz drasticamente a perda de sangue e ganha tempo até que a vítima receba atendimento definitivo. Sem esse controle, a hemorragia pode levar rapidamente ao choque hemorrágico e à exsanguinação, mesmo em poucos minutos.
Quando o socorrista possui treinamento prévio, o uso do torniquete torna-se relativamente simples e seguro. De modo geral, recomenda-se sua aplicação:
Entre 5 e 7 cm acima da lesão, nunca diretamente sobre articulações; ou
Na raiz do membro afetado, quando a lesão não é claramente visível ou quando há múltiplos ferimentos no mesmo membro.
Após aplicado, o torniquete deve ser apertado até que o sangramento cesse completamente. É importante reforçar que o desconforto e a dor são esperados - e não indicam erro na aplicação.
Uma dúvida relativamente comum, tanto entre profissionais quanto entre alunos de cursos de primeiros socorros, diz respeito às cores dos torniquetes, normalmente encontradas em preto, laranja ou azul.
A pergunta é direta: a cor interfere na eficácia do torniquete? A resposta técnica é clara: não.
A cor não altera o desempenho mecânico nem a capacidade de controle da hemorragia. No entanto, ela desempenha um papel importante como convenção operacional, auxiliando na identificação do dispositivo, no contexto de uso e na organização dos materiais.
Apesar de existirem diversas instituições e organismos que estabelecem padrões técnicos de qualidade para torniquetes (como resistência, largura mínima e eficiência na oclusão do fluxo sanguíneo), a cor não é um critério mandatório de desempenho. Não existe uma norma técnica internacional que indique que determinada cor seja obrigatória para uso real ou para treinamento. Cada instituição - militar, civil, educacional ou de resposta a emergências - adota protocolos próprios, adequados ao seu ambiente e finalidade.
🔵 Azul - Treinamento
O azul é amplamente utilizado para identificar torniquetes destinados exclusivamente ao treinamento. Esses dispositivos geralmente possuem as mesmas dimensões e o mesmo mecanismo dos torniquetes operacionais, mas a coloração diferenciada evita que sejam confundidos com equipamentos de uso real.
Torniquete T-APH Azul, fabricado pela empresa brasileira Desmodus.
Essa prática reduz riscos em ambientes de instrução e ajuda a preservar os torniquetes operacionais para situações reais.
🟠 Laranja - Alta visibilidade
Torniquetes na cor laranja são preferidos em contextos de medicina civil, atendimento pré-hospitalar e resposta a emergências, onde a visibilidade é um fator crítico.
Torniquete T-APH Laranja, fabricado pela empresa brasileira Desmodus.
A cor facilita:
a localização rápida do dispositivo dentro do kit;
a identificação imediata de que um torniquete já foi aplicado na vítima;
a continuidade adequada do atendimento por equipes que chegam posteriormente, evitando reaplicações desnecessárias.
⚫ Preto - Tático/Militar
Em ambientes militares e de forças táticas, o uso de torniquetes pretos ou em cores discretas está associado à necessidade de baixa visibilidade. Nesses cenários, chamar atenção pode representar risco adicional, e o equipamento precisa se integrar ao uniforme e ao ambiente operacional.
Torniquete T-APH Preto, fabricado pela empresa brasileira Desmodus.
Ainda assim, essa mesma característica exige maior atenção das equipes para não deixar o torniquete passar despercebido durante reavaliações.
Em resumo, a cor do torniquete não salva - nem compromete - vidas por si só. O que salva vidas é o uso precoce, correto e baseado em treinamento adequado. As cores representam uma ferramenta auxiliar de organização, segurança e comunicação, adaptada às necessidades de cada contexto operacional.
Entender essa lógica ajuda a desfazer mitos, evita discussões improdutivas e reforça o mais importante: reconhecer uma hemorragia grave e agir rapidamente.
*Esse texto foi gerado com auxílio de ferramentas de inteligência artificial e contou com revisão humana.