Texto originalmente publicado por Carlos Felipe dos Santos em 10/jul/26.
Disponível em https://medium.com/p/4e6708b049a5
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Em uma emergência, antes mesmo da chegada da ambulância, existe uma atitude que pode mudar completamente o desfecho de uma ocorrência: saber pedir ajuda.
Parece simples. Pegar o celular, discar 192 ou 193 e aguardar. Mas, na prática, o acionamento do serviço de emergência exige calma, clareza e informação. Uma ligação mal conduzida pode atrasar o envio da viatura correta. Um endereço incompleto pode fazer a equipe perder minutos preciosos. Uma informação omitida pode impedir que o recurso adequado seja deslocado.
E, quando falamos em emergência, minutos não são apenas minutos. Podem representar cérebro sem oxigênio, coração sem circulação, sangramento sem controle, vítima presa em ferragens, incêndio se alastrando ou uma pessoa inconsciente sem assistência.
Depois de avaliar rapidamente a cena e perceber que há uma vítima que precisa de atendimento, o serviço de emergência deve ser acionado o quanto antes.
Mesmo que a pessoa tenha treinamento em primeiros socorros, saiba reconhecer uma parada cardiorrespiratória, controlar uma hemorragia ou posicionar uma vítima em segurança, esse cuidado inicial precisa ter continuidade. Primeiros socorros não substituem atendimento pré-hospitalar. Eles compram tempo até a chegada de uma equipe preparada, com viatura, equipamentos, medicações, comunicação com a rede e capacidade de transporte.
No Brasil, dois números precisam estar bem fixados na memória da população:
192 - SAMU
193 - Corpo de Bombeiros
O SAMU 192 é um serviço gratuito, disponível 24 horas por dia, todos os dias da semana. O atendimento começa pelo chamado telefônico, quando são prestadas orientações sobre as primeiras ações, a equipe coleta dados da vítima e da localização e, em seguida, o caso é avaliado pela regulação médica, que decide o tipo de recurso necessário.
Já o Corpo de Bombeiros deve ser acionado especialmente nas situações que envolvem resgate, salvamento, incêndio, risco ambiental, vítima presa, local de difícil acesso ou cenário inseguro. Em São Paulo, por exemplo, o 193 é o telefone emergencial do Corpo de Bombeiros, serviço que recebeu mais de 2,6 milhões de ligações em 2025, segundo dados divulgados pela própria corporação
De forma prática, pense assim:
O SAMU 192 deve ser priorizado em emergências clínicas e situações de saúde que exigem avaliação médica ou atendimento pré-hospitalar móvel. É o caso de dor no peito, suspeita de infarto, AVC, crise convulsiva, desmaio, falta de ar, parada cardiorrespiratória, intoxicações, parto de emergência, crises hipertensivas, tentativas de suicídio, queimaduras graves e outras situações com risco de morte, sequela ou sofrimento intenso. O próprio Ministério da Saúde lista essas condições entre as situações em que o SAMU deve ser acionado.
O Corpo de Bombeiros 193 deve ser acionado quando, além do atendimento à vítima, existe necessidade de resgate ou controle de risco: vítima presa em ferragens, soterramento, desabamento, incêndio, vazamento de gás, choque elétrico, afogamento, acidente com produtos perigosos, altura, local de difícil acesso ou qualquer situação em que o ambiente ainda oferece perigo.
Quadro comparativo: quando ligar para o SAMU ou Corpo de Bombeiros? Imagem: elaborada pelo autor.
Na dúvida, o mais importante é ligar, explicar claramente o que está acontecendo e seguir as orientações do atendente. Em muitos locais, os serviços se comunicam, se apoiam e podem acionar recursos complementares conforme a necessidade.
A ligação para o serviço de emergência precisa ser objetiva. Quem atende do outro lado da linha não está apenas "ouvindo uma história". Está tentando identificar o tipo de ocorrência, a gravidade, o risco da cena, o número de vítimas, o endereço e o recurso mais adequado.
Por isso, ao ligar, mantenha a calma e informe, logo no início:
1. Quem está ligando
Diga seu nome e o número do telefone de onde está ligando. Se a chamada cair, se o sinal falhar ou se a equipe precisar confirmar alguma informação, será possível retornar o contato.
2. Onde está acontecendo
Informe o endereço da forma mais completa possível: rua, número, bairro, cidade e ponto de referência. Se estiver em rodovia, informe o nome da via, sentido, quilômetro aproximado, faixa afetada e referências próximas. Se estiver em condomínio, escola, empresa, prédio ou unidade de saúde, diga também bloco, andar, portaria ou setor.
3. O que aconteceu
Diga, de forma simples, o tipo de ocorrência: queda, atropelamento, mal súbito, convulsão, incêndio, afogamento, engasgo, parada cardiorrespiratória, acidente de trânsito, agressão, queimadura, soterramento, vazamento de gás.
Não tente florear a informação. Não use termos técnicos se não tiver certeza. O mais importante é descrever o que você está vendo.
4. Quantas vítimas existem
Uma vítima é diferente de cinco. Um carro com uma pessoa ferida é diferente de um ônibus envolvido em acidente. O número de vítimas influencia o tipo e a quantidade de viaturas enviadas.
5. Como a vítima está
Informe se a pessoa está acordada, respirando, falando, sangrando, presa, inconsciente, convulsionando, com dor no peito, com dificuldade para respirar ou sem resposta.
Algumas informações mudam totalmente a prioridade do atendimento. Uma vítima inconsciente e sem respiração normal, por exemplo, pode estar em parada cardiorrespiratória. Uma vítima com sangramento intenso pode precisar de controle imediato de hemorragia. Uma pessoa com fraqueza em um lado do corpo e alteração na fala pode estar diante de um AVC.
6. Se há risco no local
Avise se existe fogo, fumaça, vazamento de gás, fiação elétrica caída, trânsito intenso, produtos químicos, agressor no local, risco de desabamento, animal agressivo, arma ou qualquer ameaça à segurança.
A equipe de emergência também precisa chegar viva e segura para conseguir atender a vítima.
O atendimento começa ainda durante a chamada telefônica. Imagem: ChatGPT
Um erro comum é imaginar que, depois de ligar, basta esperar. Mas existem atitudes simples que ajudam muito a equipe.
Se houver mais pessoas no local, peça para alguém ficar na porta, no portão, na entrada do condomínio, na calçada ou em um ponto visível para sinalizar a chegada da viatura. Em prédios, essa pessoa pode orientar a portaria, reservar elevador, abrir acesso, indicar o andar e conduzir a equipe até a vítima.
Em casas, deixe portão destrancado se for seguro. Afaste animais domésticos. Acenda luzes externas à noite. Retire obstáculos do caminho. Se estiver em via pública, sinalize o local para evitar novos acidentes, sem se colocar em risco.
Essa atitude parece pequena, mas reduz perda de tempo. A viatura não precisa procurar o número. A equipe não precisa bater em várias portas. O socorro chega diretamente onde precisa chegar.
Também é importante não desligar até ser orientado. O atendente pode passar condutas essenciais: iniciar compressões torácicas, não mover a vítima, controlar sangramento, manter a pessoa em segurança, afastar curiosos ou observar sinais de piora.
No caso de acidentes com motociclistas, por exemplo, a orientação do Ministério da Saúde é não retirar o capacete e não oferecer água aos acidentados.
Ao solicitar uma viatura, é importante que alguém fique do lado de fora para sinalizar o local da emergência. Imagem: ChatGPT
Existe um ponto que precisa ser reforçado: prestar socorro não significa, necessariamente, colocar a vítima no carro e sair correndo para o hospital.
Em muitos casos, isso pode até piorar a situação.
Prestar socorro pode ser proteger a cena, chamar ajuda, orientar outras pessoas, iniciar manobras simples e seguras, aguardar a equipe e repassar informações corretas. O próprio Código Penal, ao tratar da omissão de socorro, inclui como conduta criminosa deixar de prestar assistência quando possível fazê-lo sem risco pessoal ou não pedir, nesses casos, o socorro da autoridade pública. A pena prevista é detenção de um a seis meses ou multa, com aumento se da omissão resultar lesão corporal grave ou morte.
Ou seja: quando alguém presencia uma vítima ferida, inválida, desamparada ou em grave e iminente perigo, e não pode ou não sabe intervir diretamente, chamar o serviço público de emergência é uma forma concreta de prestar socorro.
No trânsito, a legislação também trata do tema. O Código de Trânsito Brasileiro prevê crime quando o condutor envolvido no sinistro deixa de prestar imediato socorro à vítima ou, não podendo fazê-lo diretamente, deixa de solicitar auxílio da autoridade pública.
Isso não significa colocar-se em risco. Ninguém deve entrar em local com fogo, vazamento de gás, fiação energizada, agressor ativo ou trânsito sem segurança. Mas se é possível ligar, sinalizar e pedir ajuda, a omissão não se justifica.
Trote para serviços de emergência não é brincadeira: ocupa linhas telefônicas, mobiliza atendentes, pode deslocar viaturas desnecessariamente e atrasa o atendimento de quem realmente precisa, como vítimas de parada cardiorrespiratória, acidentes graves, incêndios ou convulsões.
Dados de diferentes regiões mostram a dimensão do problema: em Minas Gerais, entre janeiro e agosto de 2025, foram registradas mais de 167 mil chamadas falsas para os números 190, 193 e 192; em Santa Catarina, o Corpo de Bombeiros contabilizou mais de 5 mil trotes em 2025; em Guarujá, os trotes ao SAMU cresceram 28% entre 2022 e 2023; e, em Porto Velho, chegaram a representar até 9,7% das ligações mensais ao serviço.
Além de prejudicar o atendimento de ocorrências reais, o trote pode gerar consequências legais.
O Código Penal prevê punição para comunicação falsa de crime ou contravenção e para condutas que perturbem ou dificultem serviços de comunicação e utilidade pública.
Em São Paulo, a Lei Estadual nº 14.738/2012 também prevê multa para responsáveis por linhas telefônicas usadas em chamadas falsas para o 190, 193 e 192, valor que em 2026 corresponde a aproximadamente R$ 2.582,21. O Decreto Estadual nº 67.032/2022 regulamenta a identificação e responsabilização desses casos. Portanto, passar trote não é apenas uma atitude irresponsável: é uma conduta que coloca vidas em risco e pode gerar punições administrativas e criminais.
Grande parte da população já ouviu falar em primeiros socorros, mas nem sempre sabe o que fazer nos primeiros minutos. E, muitas vezes, a primeira medida correta não exige equipamento, curso avançado ou técnica complexa. Exige decisão.
Ligar para o número certo. Informar o endereço corretamente. Dizer o que está acontecendo. Contar quantas vítimas existem. Avisar se há risco. Não passar trote. Não desligar antes da orientação. Pedir para alguém aguardar a viatura. Abrir caminho para a equipe.
Isso também salva vidas.
Em uma emergência, a pergunta não deve ser apenas "o que eu sei fazer com as mãos?", mas também "como eu posso fazer o socorro chegar mais rápido?".
Porque pedir ajuda do jeito certo não é detalhe. É parte do atendimento.
E, em muitos casos, é exatamente o primeiro elo entre a vítima e a chance de sobreviver.
*Esse texto foi gerado com auxílio de ferramentas de inteligência artificial e contou com revisão humana.