Texto originalmente publicado por Carlos Felipe dos Santos em 06/set/26.
Disponível em https://medium.com/p/2afc8ed49abf
Tempo de leitura: 12 min.
Quando um paciente não consegue manter a própria via aérea, apresenta ventilação inadequada ou está diante de uma situação de iminente risco de morte, garantir oxigenação e ventilação passa a ser prioridade.
Entre a simples ventilação com bolsa-válvula-máscara e a intubação orotraqueal existe uma alternativa importante: a máscara laríngea.
Ela permite estabelecer uma via aérea avançada sem introduzir um tubo dentro da traqueia. O dispositivo é posicionado na entrada da laringe e cria uma vedação que conduz o fluxo de gases até os pulmões.
Dispositivo supraglótico. Imagem: jems.com
E existe uma informação particularmente importante para a Enfermagem brasileira: o enfermeiro pode utilizar dispositivos extraglóticos em situações de urgência e emergência com iminente risco de morte, desde que possua capacitação, experiência e esteja inserido em protocolo institucional — uma atuação regulamentada pela Resolução Cofen nº 641/2020. Mais adiante, vamos detalhar exatamente o que essa resolução estabelece.
Mas como chegamos até aqui?
Durante décadas, o manejo avançado da via aérea esteve fortemente associado à intubação traqueal.
A intubação é extremamente importante, mas exige treinamento, equipamentos e condições adequadas. Além disso, existem situações em que ela pode ser difícil, demorada ou simplesmente não ser possível naquele momento.
Foi nesse contexto que surgiu uma ideia aparentemente simples: seria possível criar uma via aérea que não precisasse entrar na traqueia, mas que ventilasse os pulmões de forma mais eficiente do que uma máscara facial?
A resposta veio do anestesiologista britânico Archie Ian Jeremy Brain.
Archie Brain, anestesiologista inventor da máscara laríngea. Imagem: arquivo pessoal
O desenvolvimento da máscara laríngea começou no início da década de 1980.
Brain buscava uma alternativa que combinasse características da máscara facial com as vantagens de uma via aérea mais estável, evitando a necessidade de atravessar a glote.
O conceito evoluiu a partir de protótipos artesanais. Brain usou como referência as máscaras odontológicas de Goldman e testou diferentes modelos até encontrar uma geometria capaz de se acomodar ao redor da entrada da laringe.
O primeiro uso clínico de um protótipo ocorreu em 1981. O trabalho foi publicado na literatura científica em 1983, apresentando a máscara laríngea como uma nova alternativa de via aérea, capaz de substituir a máscara facial ou o tubo endotraqueal em determinadas situações - tanto para ventilação espontânea quanto para ventilação com pressão positiva.
Depois de anos de desenvolvimento e milhares de utilizações experimentais, a versão comercial da máscara laríngea clássica chegou ao mercado em 1988.
A inovação ganhou espaço rápido na anestesia. Em poucos anos, deixou de ser novidade e passou a integrar a rotina de hospitais em diversos países.
A máscara laríngea é um dispositivo supraglótico. Isso significa que ela fica acima da glote, e não dentro da traqueia.
Seu princípio é relativamente simples: a máscara cria uma vedação ao redor da entrada da laringe, e essa vedação direciona o fluxo de ar para a via aérea inferior.
Posicionamento da máscara laríngea. Imagem: gerada por ferramenta de inteligência artificial.
Essa diferença precisa estar muito clara.
Na intubação orotraqueal, o tubo atravessa a glote e o cuff fica dentro da traqueia. Na máscara laríngea, o dispositivo não precisa atravessar as pregas vocais.
Podemos simplificar assim:
Tabela comparativa. Gerada por ferramenta de inteligência artificial.
A máscara laríngea clássica possui componentes fundamentais:
• Tubo de ventilação
• Máscara distal
• Cuff (manguito)
• Balão piloto
• Válvula de insuflação
• Conector de 15 mm
O cuff é introduzido desinsuflado. Depois de posicionado, é insuflado com ar, e essa expansão cria a vedação ao redor da entrada da laringe - o que permite direcionar o fluxo de gás para os pulmões.
O objetivo do cuff não é simplesmente preencher a garganta. Ele precisa criar vedação suficiente para permitir ventilação, sem gerar pressão excessiva sobre a mucosa.
Esse é um dos detalhes que diferenciam o uso correto da máscara laríngea de uma utilização meramente mecânica.
Mais ar não significa necessariamente melhor vedação. Um cuff excessivamente insuflado aumenta a pressão sobre os tecidos da faringe e pode contribuir para complicações como dor de garganta, lesões de mucosa e alterações neurológicas locais.
Estudos demonstram relação entre pressão elevada do cuff e eventos faringolaríngeos, e diversos fabricantes estabelecem limites máximos de pressão, frequentemente na faixa de 60 cmH₂O para determinados modelos.
Por isso, quando o dispositivo permite, controlar a pressão do cuff com manômetro é uma medida importante de segurança.
A primeira máscara laríngea foi apenas o começo. Com o passar dos anos, novos dispositivos surgiram para resolver limitações do modelo clássico - principalmente em três frentes:
1. Melhor vedação - novos formatos de cuff permitiram aumentar a pressão de vedação.
2. Drenagem gástrica - alguns dispositivos passaram a incorporar um canal específico para a passagem de uma sonda e descompressão gástrica.
3. Possibilidade de intubação - alguns modelos permitem que o tubo endotraqueal seja introduzido através do próprio dispositivo supraglótico.
Assim surgiram diferentes gerações e famílias de dispositivos.
A LMA Classic representa o conceito original. Possui cuff inflável, tubo de ventilação, balão piloto e abertura voltada para a entrada da laringe.
Seu principal objetivo é estabelecer rapidamente uma via aérea supraglótica. Não possui o mecanismo de drenagem gástrica encontrado em dispositivos mais modernos, por isso é geralmente considerada um dispositivo de primeira geração.
LMA Classic. Imagem: Teleflex Medical.
A LMA Supreme, além da via respiratória, possui canal de drenagem gástrica — é possível introduzir uma sonda por uma via específica do dispositivo para acessar o estômago. Essa é uma das características que diferenciam muitos dispositivos de segunda geração dos modelos clássicos.
Está disponível em diferentes tamanhos, selecionados principalmente pelo peso do paciente, e o fabricante estabelece limites específicos para volume do cuff, pressão e tamanho da sonda gástrica.
LMA Supreme. Imagem: Teleflex Medical.
A LMA ProSeal também representa uma evolução da máscara laríngea. Seu desenho busca maior pressão de vedação e inclui canal para drenagem gástrica - característica relevante quando se pretende utilizar ventilação com pressão positiva.
Estudos comparativos mostram que a ProSeal pode apresentar maior pressão de vedação do que a LMA Classic em determinadas condições.
A LMA Protector incorporou recursos adicionais, como canais de drenagem gástrica e, em alguns modelos, sistemas para controle da pressão do cuff.
Outro aspecto importante é a possibilidade de utilização como conduto para intubação, mediante técnica apropriada - o que transforma o dispositivo de uma simples ferramenta de ventilação em uma possível ponte para uma via aérea traqueal.
LMA Protector. Imagem: Teleflex Medical.
AA LMA Fastrach foi desenvolvida especificamente para viabilizar a intubação através de um dispositivo supraglótico. Funciona como via aérea supraglótica e, ao mesmo tempo, como conduto para intubação traqueal - o que é especialmente útil em situações de via aérea difícil.
O conceito é simples: primeiro se estabelece ventilação através do dispositivo; depois, se necessário e com técnica apropriada, o próprio dispositivo é usado como caminho para uma via aérea traqueal.
LMA Fastrach. Imagem: Teleflex Medical.
A evolução dos dispositivos supraglóticos também mudou o conceito de cuff: a i-gel não possui cuff inflável. Seu elemento de vedação é um elastômero termoplástico de grau médico com formato anatômico - ou seja, i-gel ≠ cuff que precisa ser insuflado.
Isso elimina a necessidade de seringa para insuflar o cuff e reduz uma etapa do procedimento. A i-gel também possui canal gástrico nos modelos correspondentes e elementos de estabilização e proteção contra mordida.
i-gel. Imagem: Intersurgical.
Essa pergunta parece simples, mas não tem resposta única. Não existe uma máscara laríngea universalmente “melhor”. Existe o dispositivo:
• Disponível
• Adequado ao paciente
• Adequado ao cenário
• Compatível com a indicação
• Para o qual o profissional possui treinamento
• Previsto pelo protocolo institucional
Uma LMA Classic pode ser extremamente útil quando é o dispositivo disponível e o profissional domina a técnica. Em outra situação, uma LMA Supreme ou i-gel pode oferecer vantagens por possuir canal gástrico. Em uma via aérea difícil, um dispositivo que permita intubação através dele pode ser a melhor escolha.
A escolha, portanto, é sempre contextual — não existe hierarquia fixa entre os modelos.
Os dispositivos supraglóticos têm aplicação em diferentes cenários, entre eles:
• Parada cardiorrespiratória
• Dificuldade ou falha de ventilação com bolsa-válvula-máscara
• Via aérea difícil
• Falha ou dificuldade de intubação
• Necessidade de estabelecer rapidamente uma via aérea avançada
• Atendimento pré-hospitalar
• Emergência hospitalar
• Anestesia
O próprio Cofen reconhece os dispositivos extraglóticos como ferramentas de acesso à via aérea em situações de iminente risco de morte, incluindo cenários de via aérea difícil, demora ou falha da intubação e parada cardiorrespiratória.
Aqui existe uma confusão comum: não se deve afirmar que a máscara laríngea protege completamente a via aérea contra aspiração.
Ela cria uma vedação ao redor da entrada laríngea e, em modelos de segunda geração, alguns mecanismos podem melhorar a separação entre via respiratória e trato gastrointestinal — mas isso não é proteção absoluta.
Por isso, máscara laríngea não equivale a tubo orotraqueal com cuff traqueal em relação à proteção contra aspiração. Esse conceito precisa estar muito claro, principalmente em pacientes com alto risco de regurgitação.
Aqui é preciso cuidado. É comum encontrar a afirmação de que uma máscara laríngea “pode permanecer por até 24 horas” — isso não deve ser generalizado para todas as máscaras laríngeas.
A duração máxima depende do modelo, do fabricante, da indicação e da respectiva Instrução de Uso. Existem produtos cuja documentação estabelece duração máxima de 24 horas, mas isso não significa que qualquer LMA possa permanecer por esse período.
No contexto da emergência e da Enfermagem brasileira, a própria documentação do Cofen trata os dispositivos extraglóticos como vias aéreas de resgate e temporárias, recomendando substituição assim que possível por tubo endotraqueal ou traqueostomia quando uma via aérea definitiva for necessária.
Portanto, a forma correta de resumir é: a duração de permanência depende do dispositivo e de sua indicação de uso. Em emergência, o dispositivo deve ser encarado como via aérea temporária de resgate — não como substituto universal de uma via aérea definitiva.
Sim — e, no Brasil, essa possibilidade está expressamente regulamentada.
A Resolução Cofen nº 641/2020 dispõe sobre a utilização de dispositivos extraglóticos e outros procedimentos para acesso à via aérea por enfermeiros em situações de urgência e emergência, nos ambientes intra e pré-hospitalares.
O artigo 1º estabelece que é privativo do enfermeiro, no âmbito da equipe de Enfermagem, a utilização dos dispositivos extraglóticos para acesso à via aérea, exclusivamente em situação de iminente risco de morte.
Isso é importante: a resolução não transforma a máscara laríngea em procedimento de uso indiscriminado pelo enfermeiro. Ela estabelece uma competência dentro de um contexto específico — urgência/emergência + iminente risco de morte + enfermeiro capacitado.
A mesma resolução também estabelece requisitos de capacitação e experiência prática, determinando que sejam definidos protocolos, capacitações, materiais, equipamentos e condições adequadas para melhores práticas e segurança do paciente e da equipe. O Cofen destaca ainda a necessidade de experiência prática comprovada na utilização dos dispositivos extraglóticos.
Ou seja: habilitação legal não significa competência técnica automática. O profissional precisa conhecer o dispositivo, saber selecionar o tamanho, realizar a inserção, reconhecer falhas, avaliar a ventilação e ter uma estratégia de resgate.
Imagine a situação: um paciente está inconsciente, não protege a própria via aérea, e a ventilação com bolsa-válvula-máscara está difícil. A equipe precisa estabelecer uma via aérea avançada.
A intubação pode ser realizada quando indicada, quando há profissional habilitado e condições adequadas. Mas se a intubação não for possível, estiver demorando ou falhar, um dispositivo supraglótico pode restabelecer a ventilação.
Esse é um dos motivos pelos quais a máscara laríngea é tão importante. Ela não precisa ser encarada como concorrente da intubação — pode ser ponte, resgate, alternativa, estratégia temporária.
Inserir a máscara laríngea não encerra o procedimento. É nesse momento que começa uma etapa igualmente importante: confirmar se ela está funcionando.
Devemos avaliar:
• Expansão torácica — o tórax está expandindo?
• Ausculta — existe ventilação bilateral?
• Vazamento — existe escape excessivo?
• Saturação — a oxigenação está melhorando?
• Capnografia — existe CO₂ expirado com forma de onda compatível com ventilação?
• Fixação — o dispositivo está estável?
• Pressão do cuff — nos dispositivos com cuff inflável, está dentro dos limites recomendados?
A confirmação deve ser contínua, especialmente durante transporte e movimentação do paciente.
Esse é talvez o conhecimento mais importante: não devemos ficar tentando indefinidamente.
Se o dispositivo não ventila, o raciocínio deve ser sistemático: conexão → posição → tamanho → vedação → obstrução → doença pulmonar → estratégia de resgate.
As causas mais comuns incluem:
• Mau posicionamento
• Tamanho inadequado
• Cuff inadequado
• Obstrução por língua ou secreções
• Mordida
• Deslocamento
• Broncoespasmo
• Pneumotórax
• Baixa complacência pulmonar
• Falha do próprio dispositivo
Se a ventilação não é obtida, o paciente precisa de outra estratégia — sem demora.
Para quem trabalha em urgência e emergência, não basta saber que a máscara laríngea existe. É importante dominar:
• Anatomia da via aérea
• Indicações, contraindicações e limitações
• Tipos de dispositivos e critérios de seleção do tamanho
• Técnica de inserção
• Controle da pressão do cuff
• Confirmação do posicionamento e capnografia
• Reconhecimento de vazamento e complicações
• Conduta diante da falha do dispositivo e estratégia de resgate
• Manutenção, fixação e critérios para substituição
• Protocolo institucional
E, principalmente: saber quando a máscara laríngea está funcionando — e reconhecer rapidamente quando ela não está.
A evolução dos dispositivos supraglóticos não tornou a intubação traqueal obsoleta. O que ela fez foi ampliar o arsenal disponível para o manejo da via aérea.
Hoje é possível pensar em uma sequência de estratégias: máscara facial → dispositivo supraglótico → intubação traqueal → via aérea cirúrgica, quando indicada.
Em emergência, essa sequência não precisa ser linear — o profissional pode avançar ou retornar entre estratégias conforme a resposta do paciente.
Mais de quatro décadas depois dos primeiros protótipos de Archie Brain, a ideia de uma via aérea que não precisa entrar na traqueia evoluiu para uma família inteira de dispositivos — com respaldo normativo também para a Enfermagem brasileira, através da Resolução Cofen nº 641/2020.
Conhecer a máscara laríngea, portanto, não é conhecer apenas um dispositivo. É compreender uma estratégia de manejo da via aérea.
Porque, diante de um paciente que não consegue respirar adequadamente, a pergunta não deve ser apenas “qual dispositivo eu tenho?” — mas “como consigo garantir oxigenação e ventilação com segurança, agora?”
E, em determinadas situações, a resposta pode estar justamente acima da glote.
Máscara laríngea = dispositivo supraglótico; não atravessa a glote.
Permite ventilação e pode ser usada como estratégia de resgate — não é, por si só, via aérea definitiva.
Modelos modernos podem ter drenagem gástrica e recursos para intubação; a i-gel tem cuff anatômico não inflável.
A escolha do dispositivo é sempre contextual: disponibilidade, paciente, cenário, treinamento e protocolo institucional.
Inserir não basta: é preciso confirmar ventilação (expansão torácica, ausculta, vazamento, saturação, capnografia, fixação, pressão do cuff).
O enfermeiro pode utilizar dispositivos extraglóticos em situação de iminente risco de morte, com amparo da Resolução Cofen nº 641/2020 — desde que atendidos os requisitos de capacitação e protocolo.
Vídeo resumo
*Esse texto foi gerado com auxílio de ferramentas de inteligência artificial e contou com revisão humana.