A punção intraóssea (IO) é uma técnica de acesso vascular de emergência que permite a administração rápida de medicamentos, fluidos e, conforme protocolo, hemocomponentes diretamente no espaço medular. Deve ser considerada quando há necessidade de acesso vascular imediato e o acesso venoso periférico não é obtido rapidamente ou apresenta dificuldade significativa.
É especialmente útil no paciente crítico e traumatizado. No choque, a vasoconstrição periférica reduz o calibre dos vasos e dificulta o acesso venoso, enquanto o espaço vascular intraósseo permanece relativamente preservado, mantendo comunicação com a circulação sistêmica mesmo em condições de hipoperfusão.
Após a inserção da agulha no espaço medular, as soluções alcançam rapidamente a circulação sistêmica, permitindo efeitos semelhantes aos da administração intravenosa.
A AHA e o ERC recomendam o acesso IV como primeira opção na parada cardiorrespiratória em adultos, considerando a via IO quando o acesso IV não for obtido ou não for viável. O ERC 2025 recomenda duas tentativas de acesso IV antes de considerar a IO em adultos em parada cardíaca. Em outras situações críticas, a via IO pode ser considerada precocemente quando a obtenção do acesso IV for difícil ou causar atraso relevante.
1. Indicações
Parada cardiorrespiratória;
Choque e hipoperfusão grave;
Trauma grave;
Emergências com necessidade imediata de medicamentos ou fluidos;
Situações em que o acesso venoso periférico não é obtido rapidamente.
2. Contraindicações
Fratura no osso selecionado;
Infecção ou queimadura no local;
Tentativa intraóssea recente no mesmo osso;
Doença óssea significativa ou alteração da integridade óssea;
Alteração anatômica que dificulte a identificação do sítio;
Prótese ou procedimento ortopédico que comprometa o local selecionado.
Os principais sítios utilizados são:
1. tíbia proximal:
Um dos sítios mais utilizados, especialmente em situações de emergência. O ponto de inserção encontra-se na região medial da tíbia proximal, sobre a superfície plana do osso. É um local de fácil identificação e pode ser preferido quando se deseja evitar interferência com procedimentos realizados no tórax.
2. tíbia distal:
Localizada na região medial da tíbia, proximal ao maléolo medial, sobre a superfície plana do osso. É uma alternativa quando a tíbia proximal não está disponível ou apresenta contraindicação.
3. úmero proximal:
Pode ser utilizado principalmente em adultos. Apresenta potencial para fluxos elevados, mas exige adequada identificação dos marcos anatômicos, escolha apropriada do comprimento da agulha e atenção ao risco de deslocamento durante a movimentação do membro.
4. fêmur distal:
Pode ser utilizado em situações pediátricas específicas, especialmente quando outros sítios não estão disponíveis ou são contraindicados. A localização deve respeitar os marcos anatômicos e evitar a placa de crescimento.
5. esterno:
Utilizado exclusivamente com dispositivos desenvolvidos para acesso intraósseo esternal. Sua utilização depende de dispositivo específico e treinamento adequado.
Importante: a escolha do sítio deve considerar idade, anatomia, condição clínica, contraindicações, procedimentos simultâneos, dispositivo disponível e experiência do profissional.
Os dispositivos utilizados para acesso intraósseo podem ser classificados de acordo com o mecanismo empregado para introdução da agulha:
1. Dispositivos manuais:
Utilizam força e movimentos de rotação para atravessar o córtex ósseo. Entre os exemplos estão as agulhas de Jamshidi e Dieckmann. Não dependem de fonte de energia e podem ser utilizadas quando dispositivos automatizados não estão disponíveis.
2. Dispositivos motorizados:
Utilizam um mecanismo elétrico para realizar a perfuração do córtex ósseo, permitindo inserção rápida e controlada. O EZ-IO® é um dos exemplos mais conhecidos e utiliza agulhas de diferentes comprimentos conforme o paciente e o local de inserção.
3. Dispositivos de impacto:
Utilizam um mecanismo de mola para impulsionar a agulha através do córtex ósseo. O Bone Injection Gun (B.I.G.®) é um exemplo desse tipo de dispositivo e foi desenvolvido para obtenção rápida de acesso intraósseo em situações de emergência.
4. Dispositivos para acesso esternal:
São desenvolvidos especificamente para inserção no esterno e possuem mecanismos próprios de controle da profundidade. O FAST1™ é um exemplo de dispositivo destinado a esse tipo de acesso.
Dispositivo intraósseo: selecionado conforme o sítio, características do paciente e sistema disponível no serviço.
Agulha/cânula intraóssea: compatível com o dispositivo e com comprimento adequado à espessura do tecido sobre o osso.
Antisséptico: para preparo da pele conforme protocolo institucional.
Luvas: conforme precauções e técnica asséptica.
Extensão e conexão: compatíveis com o dispositivo.
Seringa e solução para flush: para confirmação da permeabilidade e manutenção do acesso.
Sistema de infusão: equipo, solução a ser administrada e dispositivo para aplicação de pressão. Alternativamente, pode ser utilizado dânula (three-way) com seringa de 20ml.
Dispositivo de fixação e curativo: para estabilizar a cânula e proteger o local.
Lidocaína 2% sem vasoconstritor pode ser utilizada em pacientes conscientes, conforme indicação e protocolo institucional.
A punção da tíbia proximal é uma das técnicas utilizadas para obtenção de acesso intraósseo em situações de emergência. A seguir, são apresentados dois dispositivos como exemplos: B.I.G.® (Bone Injection Gun), de acionamento por mola, e EZ-IO®, de inserção motorizada. A técnica deve sempre seguir a instrução de uso do dispositivo disponível no serviço.
Posicionar o paciente:
Manter o membro inferior estabilizado e com acesso adequado à região proximal da tíbia.
Identificar o local de punção:
Palpar a tuberosidade da tíbia e localizar o ponto aproximadamente 1 polegada medial e 0,5 polegada proximal à tuberosidade tibial, conforme orientação do fabricante.
Preparar o dispositivo:
Utilizar o B.I.G.® adulto (azul, 15 G), verificar a integridade da embalagem e ajustar a profundidade de inserção para a tíbia, conforme indicação do dispositivo.
Realizar a antissepsia:
Preparar o local conforme protocolo institucional, utilizando técnica asséptica.
Posicionar o dispositivo:
Encostar a extremidade do B.I.G.® sobre o local selecionado, mantendo o dispositivo a 90° em relação à superfície óssea. Estabilizar firmemente o dispositivo durante o posicionamento.
Retirar a trava de segurança:
Manter o dispositivo na posição e retirar a trava de segurança conforme orientação do fabricante.
Acionar o dispositivo:
Manter o B.I.G.® perpendicular ao osso e pressionar o dispositivo para acionar o mecanismo de mola e realizar a inserção.
Retirar o dispositivo:
Após o disparo, retirar o corpo do B.I.G.®, mantendo a cânula estabilizada.
Retirar o mandril:
Remover o trocarte/mandril da cânula e descartá-lo imediatamente em recipiente apropriado para perfurocortantes.
Fixar a cânula:
Estabilizar a cânula conforme o dispositivo e o protocolo institucional, evitando tração ou movimentação durante a utilização.
Confirmar o posicionamento:
Verificar a estabilidade da cânula e, quando necessário, realizar aspiração para obtenção de medula óssea e confirmação do acesso.
Realizar o flush:
Realizar flush com solução fisiológica 0,9% conforme protocolo institucional, observando a resistência à infusão e as condições do local de inserção.
Iniciar a infusão:
Conectar o sistema de infusão e iniciar a administração. Quando necessário, utilizar pressão para otimizar o fluxo.
Monitorar continuamente:
Avaliar o local de inserção e o membro durante a utilização, observando dor, edema, infiltração, extravasamento, alterações do fluxo, perfusão e estabilidade da cânula.
Posicionar o paciente:
Manter o membro inferior estendido e estabilizado.
Identificar o local de punção:
Palpar a tuberosidade da tíbia e localizar a região plana da tíbia proximal. Para o EZ-IO® adulto, a referência utilizada pelo fabricante é aproximadamente 2 cm medial à tuberosidade tibial, respeitando a anatomia individual.
Selecionar a agulha:
Escolher o comprimento conforme a anatomia e a profundidade dos tecidos. Na tíbia proximal do adulto, a agulha EZ-IO® de 25 mm é frequentemente utilizada. Antes da inserção, deve permanecer pelo menos uma marca preta (5 mm) visível acima da pele; quando a profundidade dos tecidos exigir, deve-se selecionar uma agulha de maior comprimento.
Preparar o sistema:
Conectar a agulha ao EZ-IO® Power Driver, preparar a extensão previamente e retirar o protetor de segurança.
Realizar a antissepsia:
Preparar o local conforme protocolo institucional, utilizando técnica asséptica.
Posicionar a agulha:
Encostar a ponta da agulha sobre o osso, mantendo o conjunto a 90° em relação à superfície óssea.
Realizar a perfuração:
Acionar o dispositivo aplicando pressão suave e constante. Ao perceber a entrada no espaço medular, avançar aproximadamente 1 cm no adulto e então liberar o gatilho.
Retirar o driver:
Estabilizar o hub e retirar o EZ-IO® Power Driver.
Retirar o mandril:
Manter o hub estabilizado, retirar o estilete e descartá-lo imediatamente em recipiente apropriado para perfurocortantes.
Confirmar o posicionamento:
Verificar a estabilidade da cânula. A aspiração após o flush e o fluxo adequado também podem auxiliar na confirmação do posicionamento.
Fixar a cânula:
Aplicar o EZ-Stabilizer® e conectar a extensão previamente preparada.
Realizar o flush:
No adulto, realizar flush com 5–10 mL de solução fisiológica 0,9%, conforme orientação do fabricante.
Iniciar a infusão:
Administrar medicamentos e soluções conforme indicação. Quando necessário, utilizar pressão para otimizar o fluxo, após confirmar posicionamento e permeabilidade.
Monitorar continuamente:
Monitorar o local, o membro e a infusão quanto a extravasamento, infiltração, alterações do fluxo ou deslocamento da cânula, especialmente após manipulação, transporte e durante infusões sob pressão ou de vasopressores e vesicantes.
Controle da dor:
A punção e, principalmente, a infusão sob pressão podem causar dor significativa em pacientes conscientes. Nesses casos, logo após a punção, pode-se infundir lidocaína a 2%, sem conservantes e sem epinefrina, conforme protocolo institucional. Uma forma prática de memorizar a dose inicial é a técnica 2-2-2: 2 mL de lidocaína a 2%, administrados lentamente em 2 minutos. Na sequência, iniciar a infusão do medicamento necessário.
Monitoramento e cuidados:
Avaliar o local de inserção: observar edema, infiltração, sangramento, dor e alterações da pele.
Monitorar o membro: avaliar perfusão, coloração, temperatura, sensibilidade e sinais de comprometimento neurovascular.
Observar a infusão: verificar fluxo, resistência à infusão e funcionamento adequado do acesso.
Manter a fixação: evitar tração ou movimentação da cânula, especialmente durante transporte e mobilização.
Aumentar a vigilância em situações de maior risco: monitorar cuidadosamente durante uso de vasopressores, vesicantes ou altas taxas de infusão.
Reconhecer complicações: dor progressiva, edema, resistência à infusão, infiltração/extravasamento ou alterações da perfusão distal podem indicar complicação do acesso, incluindo síndrome compartimental. Nesses casos, interromper a infusão e reavaliar imediatamente o dispositivo e o membro.
Retirar assim que possível: a via intraóssea é temporária e deve ser substituída por outro acesso vascular adequado assim que este estiver disponível. Em geral, o uso é indicado por até 24 horas, conforme protocolo local.
Importante: anter avaliação contínua durante todo o período de utilização do acesso, especialmente diante de alterações clínicas ou dificuldade de infusão.
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Esse texto foi redigido por humano e contou com revisão realizada por ferramentas de inteligência artificial.