Hipodermóclise é o nome dado à técnica de infusão contínua e lenta de soluções em volumes maiores no tecido subcutâneo, tendo surgido no final da década de 1880 e ganhado relevância na época devido às limitações tecnológicas e à dificuldade de obtenção de acesso venoso seguro. Seu uso se consolidou nas primeiras décadas do século XX, quando passou a ser amplamente empregada para hidratação de pacientes debilitados, em especial idosos e indivíduos com rede venosa fragilizada.
Com o avanço da terapia intravenosa moderna — especialmente a partir das décadas de 1940 e 1950, com a popularização dos cateteres plásticos, expansão dos antibióticos endovenosos e maior disponibilidade de soluções estéreis — a hipodermóclise entrou em declínio progressivo. O movimento começou a se inverter no final da década de 1960, quando, impulsionada pelo surgimento do moderno movimento de Cuidados Paliativos, a técnica voltou a ser aplicada em larga escala.
Atualmente, a hipodermóclise é reconhecida como uma alternativa simples, segura e de baixo custo, amplamente recomendada em geriatria e cuidados paliativos, integrando-se às boas práticas assistenciais na atenção hospitalar, domiciliar e de longa permanência.
Camadas da pele e tecido subcutâneo, local de infusão contínua e lenta de soluções.
A hipoderme, camada mais profunda da pele, contém septos ricos em capilares sanguíneos e linfáticos, por onde ocorre a absorção dos fármacos administrados por via subcutânea. A maioria das medicações usadas nessa via é formada por moléculas pequenas que alcançam a corrente sanguínea por difusão simples. Esse processo depende do gradiente de concentração entre o local de injeção e o plasma, bem como da solubilidade do fármaco no tecido adiposo. Embora moléculas lipofílicas sejam favorecidas, canais aquosos no endotélio permitem também a passagem de substâncias menos lipossolúveis. Fatores como hipoperfusão, vasoconstrição e atrofia capilar, muito comuns em idosos, podem reduzir a velocidade ou a quantidade efetivamente absorvida. A biodisponibilidade desta via é similar ao da via oral, permitindo, inclusive, controle duradouro da dor, por exemplo.
Biodisponibilidade de fármacos em diferentes vias de administração.
Via parenteral mais acessível e confortável que a venosa;
Fácil inserção e manutenção do cateter;
Pode ser realizada em qualquer ambiente de cuidado, inclusive no domicílio;
Complicações locais raras;
Baixo risco de efeitos adversos sistêmicos (hiponetremia, hiperolemia, congestão):
Redução da flutuação das concentrações plasmáticas de opióides.
Baixo custo.
Volume e velocidade de infusão limitados (até 1500ml/24h por sítio de punção);
Abosrção variável (influenciada por perfusão e vascularização);
Limitação de medicamentos e eletrolitos que podem ser infundidos.
Veias fragilizadas;
Pacientes muito idosos (≥ 80 anos);
Pessoas submetidas previamente à quimioterapia;
Pacientes com demência associada à disfagia
Recusa do paciente;
Desidratação severa/choque (necessidade de infusão rápida);
Coagulopatia grave não controlada (risco de hematomas e sangramento);
Infecção próxima ao local da punção (celulite, abcesso, eritema intenso ou feridas comprometem absorção);
Anasarca (absoração prejudicada e risco aumentado para extravasamento e complicações locais).
Caquexia (tecido subcutâneo reduzido);
Síndrome da veia cava superior (risco de edema);
Insuficiência cardíaca ou congestão pulmonar (risco de sobrecarga);
Áreas que sofreram incisão cirúrgica ou radioterapia (circulação linfática prejudicada);
Proximidades de articulação e proeminências óssea.
Existem cinco áreas recomendadas para a realização da hipodermóclise, cada uma com um limite de volume que pode ser infundido em 24 horas.
Locais para punção subcutânea.
Caso o volume total necessário ultrapasse a capacidade do sítio escolhido, ou haja incompatibilidade entre os fármacos administrados, deve-se instalar um segundo acesso subcutâneo, preferencialmente no lado oposto ao primeiro.
É fundamental respeitar o limite máximo de 3.000 mL/24h, somando todos os pontos de infusão.
Mais abaixo serão apresentadas as medicações compatíveis com a via subcutânea.
As complicações da via subcutânea são incomuns quando a técnica, a diluição e a velocidade de infusão são respeitadas. Irritações leves nas primeiras horas são esperadas; porém, se persistirem por mais de quatro horas, o sítio deve ser trocado e a intercorrência registrada.
Na presença de sinais flogísticos, o cateter deve ser retirado, e o local evitado por 10 dias. O edema é relativamente frequente e costuma ser resolvido com a redução da velocidade de infusão, permitindo a reabsorção do líquido sem necessidade de retirar o acesso.
A celulite é a complicação mais grave descrita, embora rara, podendo exigir avaliação médica e antibioticoterapia.
Veja abaixo as possíveis complicações e cuidados de enfermagem:
Complicações e condutas de enfermagem.
Realize higiene das mãos antes de qualquer manuseio do dispositivo;
Faça assepsia das conexões sempre que o sistema for aberto, utilizando swab ou gaze com álcool 70% por fricção;
Troque a tampa Luer a cada manipulação;
Durante o banho, proteja o sítio de punção com filme plástico;
Mantenha a infusão lenta e contínua (60 mL/h); quando disponível, utilize bomba de infusão para manter fluxo estável;
No início da infusão, monitore o sítio a cada 30 minutos na primeira hora; depois, realize inspeção a cada 6 horas, observando edema, dor, infiltração, hiperemia ou sangramento;
Após cada administração de medicamento, realize flush com 2 mL de cloreto de sódio 0,9%;
Administre no máximo 3 medicamentos compatíveis na mesma seringa;
Quando houver incompatibilidade medicamentosa, aguarde 1 hora entre as administrações ou utilize um segundo sítio de punção;
Realize a troca do cateter a cada 7 dias ou antes, se houver sinais de irritação, falhas de fluxo ou sinais flogísticos.
Bandeja;
Luvas de procedimento;
Álcool 70% e gaze ou swab;
Cateter não agulhado (jelco) 24G ou 22G (cateter agulhado - scalp - não é indicado);
Agulha para aspiração;
Seringa de 10ml;
Flaconete de cloreto de sódio 0,9%;
Extensor multivias (Polifix);
Seringa de 10ml;
Cobertura transparente estéril.
Verifique a pulseira do paciente;
Oriente o paciente e familiar sobre o procedimento;
Avalie o local mais adequado para a punção;
Higienize as mãos;
Calce as luvas de procedimento;
Retire o ar do extensor multivias preenchendo-o com soro fisiológico (foto 1);
Realize a antissepsia da da pele;
Tracione uma prega de pele e introduza o cateter em um ângulo de 45º (para pacientes emagrecidos, reduza a angulação) em direção centrípeta, ou seja, para o centro do tronco (foto 2);
Conecte o extensor multivias (foto 3);
Aspire e verifique retorno sanguíneo. Caso não retorne, fixe o cateter e cubra com a cobertura transparente (foto 4);
Realize flush lento com 2ml de soro fisiológico;
Coloque a data da punção e recolha todo o material.
Técnica de punção de acesso para hipodermóclise.
Abaixo tabela com as principais medicações viáveis para infusão subcutânea. Lembre-se de consultar o protocolo da sua instituição e outros guias farmacêuticos.
Tabela obtida do Guia Farmacêutico do Hospital Sìrio Libanês.
Tabela obtida do Guia Farmacêutico do Hospital Sìrio Libanês.
AZEVEDO, Daniel Lima (org.). O uso da via subcutânea em geriatria e cuidados paliativos. Rio de Janeiro: SBGG, 2016. 56 p. ISBN 978-85-92674-01-4.
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Caderno 4 – Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde. Brasília: ANVISA, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/publicacoes/caderno-4-medidas-de-prevencao-de-infeccao-relacionada-a-assistencia-a-saude.pdf/@@download/file. Acesso em: 20 nov. 2025.
D’AQUINO, Maria; SOUZA, Rogério Marques de. Hipodermóclise ou via subcutânea. Revista Hospital Universitário Pedro Ernesto, v. 11, n. 2, 2012. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/revistahupe/article/view/8948. Acesso em: 20 nov. 2025.
HOSPITAL SÍRIO-LIBANÊS. Hipodermóclise. In: Guia Farmacêutico – Apoio à prescrição: administração de medicamentos. São Paulo: Hospital Sírio-Libanês, [s.d.]. Disponível em: https://guiafarmaceutico.hsl.org.br/apoio-a-prescricao/administracao-de-medicamentos/hipodermoclise. Acesso em: 20 nov. 2025.
Esse texto foi redigido por humano e contou com revisão realizada por ferramentas de inteligência artificial.