Os cateteres venosos centrais (CVCs) são dispositivos endovenosos amplamente utilizados na prática clínica, desempenhando funções essenciais como monitorização hemodinâmica, infusão de soluções hiperosmolares ou irritantes, administração de drogas vasoativas, nutrição parenteral, hemodiálise e terapias de longa duração.
A ponta do cateter geralmente se localiza na veia cava superior ou no átrio direito, garantindo fluxo adequado e minimizando riscos de irritação endotelial.
O uso de CVC foi descrito pela primeira vez em 1929, quando o médico alemão Werner Forssmann introduziu um cateter em seu próprio coração, marcando um passo decisivo para a medicina moderna. Posteriormente, em 1953, o radiologista sueco Sven-Ivar Seldinger descreveu a técnica que revolucionou o acesso vascular, permitindo a colocação de cateteres de forma mais segura e precisa — técnica utilizada até hoje.
Os cateteres venosos centrais são classificados em:
Não tunelizados (temporários) – utilizados em terapias de curta duração, como suporte em UTI e hemodiálise; são o tema principal deste texto.
Tunelizados (longa permanência) – com túnel subcutâneo que reduz risco de infecção.
Totalmente implantáveis (ports) – muito aplicados em oncologia;
PICC/CVCIP – cateter central de inserção periférica, cuja ponta localiza-se em veia central. Tem perfil de segurança favorável e menor taxa de complicações mecânicas.
Quando o paciente não necessita mais do acesso venoso central, o médico prescreve sua remoção, e o enfermeiro é o profissional qualificado para executar esse procedimento. Apesar de rotineira, a retirada do CVC envolve riscos clínicos importantes.
Cateter venoso para hemodiálise de curta permanência - Shilley.
Durante a permanência de um cateter venoso central (CVC), há uma resposta inflamatória e pró-coagulante natural do organismo à presença de um corpo estranho na corrente sanguínea. Esse processo leva à deposição progressiva de fibrina ao longo da superfície externa do cateter, formando o chamado fibrin sheath, ou bainha de fibrina.
Esse revestimento fibrinoso envolve o cateter desde o seu trajeto subcutâneo até a porção intravascular. Quando o CVC é removido, essa bainha pode persistir como um molde tubular, temporariamente mantendo uma comunicação entre o orifício cutâneo e o lúmen venoso — caracterizando a fístula dermo-venosa, uma complicação rara, porém potencialmente grave, permitindo a passagem de ar ou microrganismos por este túnel.
Isso cria um gradiente pressórico favorável à entrada de ar, especialmente durante a inspiração profunda, quando a pressão intratorácica se torna mais negativa. Consequentemente, mesmo após o cateter ser removido, o paciente pode permanecer vulnerável à embolia gasosa por alguns minutos a horas, até que o trajeto se feche completamente.
Imagem obtida por ultrassonografia exibinto fístula dermo-venosa.
A embolia gasosa é a complicação mais grave associada à fístula dermo-venosa. Quando o ar entra na circulação venosa, as bolhas alcançam o ventrículo direito e podem se acumular no trato de saída, obstruindo o fluxo para a artéria pulmonar. Esse mecanismo gera aumento súbito da pressão pulmonar, queda importante do débito cardíaco, hipoxemia e possível colapso hemodinâmico ou assistolia. Pequenos volumes que atingem os capilares pulmonares ativam mediadores inflamatórios, comprometendo ainda mais a troca gasosa e podendo causar edema pulmonar não cardiogênico. Em situações raras, ocorre embolia paradoxal, quando o ar atravessa um forame oval patente e alcança cérebro ou coronárias.
Sinais e sintomas: dispneia súbita, tosse seca ou chiado, dor torácica, taquicardia, hipotensão, cianose, queda abrupta da saturação, alteração do nível de consciência e, raramente, som em “moinho de vento” à ausculta pré-cordial. Nos casos graves, pode haver evolução para parada cardiorrespiratória.
A retirada de um cateter venoso central, embora considerada um procedimento simples, requer técnica rigorosa para minimizar complicações, especialmente a embolia gasosa — evento potencialmente grave associado à persistência temporária do túnel fibrinoso formado durante a permanência do dispositivo.
Antes da retirada, o enfermeiro deve preparar uma bandeja contendo bisturi para retirada dos pontos, gazes estéreis, solução antisséptica, luvas estéreis e um curativo oclusivo não poroso, preferencialmente uma película transparente estéril, para vedação imediata.
1. Posicione o paciente adequadamente
Abaixe a cabeceira da cama e coloque o paciente em decúbito dorsal;
Se possível, mantenha leve Trendelenburg quando o cateter for jugular ou subclávio.
2. Oriente ajuste respiratório
Se estiver consciente, oriente a realizar apneia expiratória ou manobra de Valsalva leve no momento da retirada;
Em ventilação mecânica: retirar o cateter ao final da inspiração.
3. Preparação e acesso ao sítio
Remova o curativo mantendo técnica estéril;
Realize antissepsia com clorexidina alcoólica.
4. Retirada do cateter
Realize tração suave e contínua até sua completa remoção;
Mantenha técnica rigorosamente asséptica durante toda a manobra.
5. Oclusão imediata do sítio de inserção
Aplique compressão firme por 5 a 10 minutos;
Coloque curativo totalmente oclusivo com película transparente, deixando por 24–72 horas.
6. Observação pós-procedimento
Após a retirada e oclusão, monitore o paciente;
Fique atento a dispneia, ruído de entrada de ar, crepitação subcutânea ou sangramento persistente;
Na suspeita de complicações, acione imediatamente a equipe médica.
FORSSMANN, W. Die Sondierung des rechten Herzens. Klinische Wochenschrift, v. 8, n. 45, p. 2085–2087, 1929.
MARCO, M.; ROMAN-POGNUZ, E.; ANNA, B.; SCATTO, A. Air embolism after central venous catheter removal: fibrin sheath as the portal of persistent air entry. Case Reports in Critical Care, 2013; 2013:403243. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4010003/. Acesso em: 29 nov. 2025.
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Esse texto foi redigido por humano e contou com revisão realizada por ferramentas de inteligência artificial.