Texto originalmente publicado por Carlos Felipe dos Santos em 09/jul/26.
Disponível em https://medium.com/p/57d04a75cd2e
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Nesta semana, o sarampo voltou ao centro das atenções em São Paulo. A capital investiga 22 casos suspeitos da doença e já confirmou sete casos em 2026, número superior ao registrado em todo o ano de 2025, quando foram contabilizados apenas dois casos, ambos importados.
O alerta não está restrito à capital paulista. No Paraná, foram notificados 64 casos suspeitos, sendo 63 descartados e um ainda em investigação, segundo boletim citado pela imprensa local.
O dado, por si só, não significa que exista transmissão descontrolada. Mas significa algo importante: a vigilância epidemiológica está em alerta. E, quando falamos de sarampo, isso precisa ser levado a sério.
O sarampo não é uma “doença simples da infância”. Trata-se de uma infecção viral aguda, altamente contagiosa e potencialmente grave, capaz de se espalhar rapidamente em ambientes com pessoas suscetíveis, especialmente quando há baixa cobertura vacinal. Segundo o Ministério da Saúde, uma pessoa infectada pode transmitir o vírus para até 90% das pessoas próximas que não estejam imunes. A transmissão ocorre pelo ar, ao tossir, espirrar, falar ou até respirar.
No litoral paulista, Santos informou que vai reforçar as ações de prevenção e vigilância em toda a rede municipal, mesmo sem casos confirmados no município em 2026. Entre janeiro e maio, a cobertura vacinal de crianças menores de 2 anos em Santos foi de 88,09% para a primeira dose e 77,51% para a segunda dose, abaixo da meta desejável para impedir surtos.
No Grande ABC, São Bernardo do Campo também adotou medidas preventivas após a identificação de dois casos suspeitos, com ação itinerante de bloqueio vacinal no entorno das residências dos pacientes. Segundo a publicação, as equipes de saúde foram mobilizadas para verificar carteiras de vacinação e aplicar o imunizante quando necessário.
Porque o sarampo não espera.
Diferentemente de muitas doenças respiratórias, o sarampo combina três características que preocupam muito a saúde pública: alta transmissibilidade, possibilidade de transmissão antes do reconhecimento evidente da doença e dependência direta de alta cobertura vacinal para evitar surtos.
A pessoa infectada pode transmitir o vírus antes mesmo de aparecerem as manchas vermelhas pelo corpo. A transmissão pode ocorrer entre seis dias antes e quatro dias após o aparecimento do exantema. Ou seja: quando o quadro fica “clássico”, parte da cadeia de transmissão já pode ter começado.
É por isso que a suspeita precisa gerar resposta rápida. Investigação, isolamento, notificação, busca ativa de contatos e bloqueio vacinal não são exagero. São medidas para impedir que um caso isolado se transforme em surto.
O sarampo é uma doença infecciosa causada por vírus. Ele entra no organismo principalmente pelas vias respiratórias e se espalha com facilidade. Inicialmente, pode parecer uma infecção comum: febre, tosse, coriza, irritação nos olhos e mal-estar. Depois, surgem as manchas avermelhadas na pele, que costumam começar no rosto e atrás das orelhas, espalhando-se para o restante do corpo.
Os principais sinais e sintomas incluem:
febre alta;
tosse;
coriza;
conjuntivite ou olhos avermelhados;
mal-estar intenso;
manchas vermelhas pelo corpo;
pequenas manchas brancas na parte interna da boca, conhecidas como manchas de Koplik.
Um ponto importante: a persistência da febre após o aparecimento das manchas é sinal de alerta e pode indicar maior gravidade, especialmente em crianças menores de 5 anos.
O sarampo pode evoluir com complicações importantes. Entre elas estão pneumonia, otite média aguda, encefalite, diarreia intensa, cegueira e morte. O Ministério da Saúde informa que cerca de 1 em cada 20 crianças com sarampo pode desenvolver pneumonia, que é uma das principais causas de morte pela doença em crianças pequenas. A encefalite, embora menos frequente, pode ocorrer e deixar sequelas graves.
Outro ponto que precisa ser compreendido: não existe tratamento antiviral específico para o sarampo. O manejo é principalmente de suporte, com hidratação, controle da febre, suporte nutricional, avaliação de complicações e, em crianças, uso de vitamina A conforme avaliação e indicação profissional.
Portanto, a melhor estratégia não é tratar depois. É evitar que a doença aconteça.
O Brasil recebeu novamente, em 2024, a recertificação de eliminação da circulação endêmica do sarampo. Isso significa que o país não tem transmissão endêmica sustentada do vírus. Mas isso não significa risco zero. O próprio Ministério da Saúde destaca que casos isolados ou importados podem ocorrer e que eles reforçam a necessidade de manter altas coberturas vacinais.
A preocupação atual tem várias explicações. Uma delas é o fluxo de viajantes entre países onde o vírus ainda circula. Outra é a existência de bolsões de pessoas suscetíveis, isto é, pessoas não vacinadas ou com esquema incompleto. Quando o vírus encontra essas brechas, ele pode se espalhar.
A pandemia de Covid-19 também teve impacto importante. Em 2020, OMS e UNICEF alertaram para uma queda alarmante no número de crianças recebendo vacinas essenciais, causada por interrupções nos serviços, dificuldade de acesso, medo de exposição ao coronavírus e restrições de deslocamento. Naquele período, pelo menos 30 campanhas de vacinação contra o sarampo estavam em risco de cancelamento no mundo.
Em 2021, o cenário global piorou: a cobertura da primeira dose da vacina contra o sarampo caiu para 81%, o menor nível desde 2008, deixando milhões de crianças sem a primeira e a segunda doses necessárias. No Brasil, o problema também passa pelo abandono vacinal: vacinas que exigem mais de uma dose, como a tríplice viral, apresentam evasão entre a primeira e a segunda aplicação, comprometendo a proteção coletiva e aumentando o risco de reintrodução de doenças controladas.
Manchas vermelhas pelo corpo é um dos sinais de sarampo. Imagem: ChatGPT
A vacina tríplice viral protege contra sarampo, caxumba e rubéola. No SUS, a primeira dose é recomendada aos 12 meses e a segunda aos 15 meses, por meio da vacina tetraviral ou conforme a situação vacinal da criança. Crianças a partir de 5 anos, adolescentes e adultos até 29 anos devem ter duas doses caso não tenham sido vacinados anteriormente. Adultos de 30 a 59 anos sem comprovação vacinal devem receber uma dose. Profissionais de saúde devem manter duas doses comprovadas, independentemente da idade.
Em situações específicas de surto ou risco aumentado, crianças de 6 a 11 meses podem receber a chamada “dose zero”. Essa dose é uma proteção antecipada, mas não substitui as doses previstas no calendário vacinal.
A meta recomendada para evitar surtos é alta: a OPAS reforça que é necessária cobertura de pelo menos 95% com duas doses da vacina contra o sarampo. Isso porque o vírus é extremamente transmissível. Pequenas falhas de cobertura, quando acumuladas em bairros, escolas, comunidades ou municípios, podem criar o ambiente ideal para a doença voltar a circular.
Vacinação é a melhor forma de prevenção contra o sarampo. Imagem: ChatGPT
Febre alta associada a manchas vermelhas pelo corpo, tosse, coriza, conjuntivite ou mal-estar intenso deve ser valorizada. A orientação é procurar um serviço de saúde, evitar contato com outras pessoas até avaliação e informar histórico de viagem, contato com caso suspeito ou situação vacinal incompleta.
Para profissionais de saúde, o alerta é ainda maior: suspeitar, notificar, isolar e orientar corretamente são etapas fundamentais. Em doenças altamente transmissíveis, perder tempo é permitir que o vírus avance.
O sarampo ensina uma lição importante: algumas doenças só parecem distantes enquanto a vacinação coletiva permanece forte.
Quando a cobertura cai, quando a segunda dose é esquecida, quando a carteira de vacinação deixa de ser conferida, doenças que pareciam controladas encontram espaço para retornar. Não porque a ciência falhou, mas porque a barreira coletiva enfraqueceu.
Os casos suspeitos em São Paulo, a investigação no Paraná e as ações de vigilância em Santos e São Bernardo não devem gerar pânico. Devem gerar responsabilidade.
Sarampo é prevenível. A vacina está disponível. E, diante de um vírus tão contagioso, manter a vacinação em dia não protege apenas uma pessoa. Protege a família, a escola, o serviço de saúde, os mais vulneráveis e toda a comunidade.
*Esse texto foi gerado com auxílio de ferramentas de inteligência artificial e contou com revisão humana.